
Em 1938 Orson Welles, então radialista da CBS, resolveu apresentar o livro A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, no programa “Mercury Theater On the Air”, que transpunha clássicos da literatura para o rádio. Acho que já ouviram essa história, por um lance de mestre, transmitiu “a invasão de marcianos” de forma completamente inovadora (inventou um boletim de notícias durante a programação, abusou do improviso, utilizou o silêncio e por aí vai). A histeria provocada foi digna de americano, houve pânico nas ruas, boatos se multiplicaram, congestionamentos em cidades pacatas, fugas em massa e outras tantas.
Fica no ar qual foi o real motivo de Orson Welles com essa transmissão: conseguir um novo contrato? Inovar as transmissões radiofônicas? Dar risada do seu povo? Não se sabe. O que se sabe é que ele conseguiu mobilizar um número incrivelmente grande de pessoas, espalhar um boato extremamente absurdo e fazer com que pessoas tomassem atitudes igualmente absurda.
Traço um paralelo com o vídeo de Ronaldinho batendo a bola 04 vezes no travessão, claro que ninguém saiu correndo pelas ruas, gritando que o Ronaldinho é um marciano infiltrado entre os humanos para nos destruir, mas o fato é que, como há 60 anos, algo imprevisível, fora dos padrões do cotidiano e extremamente fantásticos, fez com que as pessoas comentassem sobre tal feito, perguntassem a seus amigos, criassem histórias sobre histórias. Não importa que tenha sido uma ação planejada, que se duvidasse da veracidade das imagens ou do talento de Ronaldinho. Só o fato de “será que ele fez aquilo mesmo?” virar conversa de botequim já prova a força do vídeo. Creio que essa é a grande força do viral, gerar histórias sobre histórias. O viral é capaz de gerar o imprevisível sobre o imprevisível. Orson Welles sabia como apavorar alguém.
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Rubens Suzuki

